Devaneios e afins.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Era tarde quando chegaram os padrinhos. Do outro lado da estrada, numa varanda mal-iluminada, Emília pensa na artista que volta e meia os acompanha. Se veio dessa vez. Se trouxe seu retrato. Pintou sem falar nada, insistia que ficasse parada. Imóvel e exterior ao raio de sol que lhe espremia a face.
- Por que vocês não sorriem para as fotos, Emília?
-Como?
-Sabe, Emília. Eu acredito que encontrei aqui o cerne da minha arte. Sou artista popular. Quero pintar sua beleza camponesa, as florzinhas do carreiro e os batizados todos que vocês fazem, mais as festas do Espírito Santo, as criancinhas vestidas de anjo. Imagine só quando o Brasil descobrir o sertão, descobrir quem você é, Emília, o verdadeiro povo brasileiro Emília! E conhecerem os burricos os porquinhos essa pinheirama vistosa, tia Lúcia, seu Marcelino. Se ninguém nem sabe como poderão recordar, né? Abra os olhos, querida. Isso, assim, agora, é, mais para o lado de cá, isso, o queixo para a frente.
Emília na cadeira de balanço no meio da sala. Catarina conversava diferente. Emília achava que ela falava sozinha. Demorava a compreender que era para erguer, ou dobrar, ou olhar para a janela. Lúcia passava para um lado, e depois para o outro. Vinha oferecer chimarrão para Catarina, que quase lhe enfiava o pincel na orelha.
- Não quero, Lúcia, obrigada. Preciso terminar isso hoje ainda.
-Ih! A senhora deixe-me ver como está ficando, pelo menos.
A expressão que fazia à tela arrepiava a mocinha retratada. Emília com dores na cadeira, curiosa e imobilizada pelo movimento dos olhos da pintora. Catarina lhe lembrava a louça nova da casa dos padrinhos.
-Se esse quadro cruzar o mar num navio para ser exposto na América, Emília!
Emília foi um dia o barco dos sonhos de Catarina.
Hoje ela não veio e há muito tempo que não é sertão em Mato Branco.