Ela encolhida no banco de trás do automóvel. Eu e eu e eu, os três. Ela atrás eles na frente e ela observa. De nuvens o céu da tarde. A visão, ainda matutina, enrosca nos toques do álcool. Assim engana o estômago. É o sacrifício a pagar por não se arrepender de ter saído com aqueles dois insanos. Ela também. Quando a buscaram em casa, sua mãe não escondeu a cara de decepção. Pegar a estrada a essa hora da noite minha filha, onde é que já se viu. E agora ela, menina, passeia colada na janela. Cheia de saudades e farta de dois e dela. Três, dizem, é um bom número. Quanta solidão cabe em três. Tão sozinhos que querem ser para sempre. Acha suas ausências mais belas que as deles. Meninos fracos, pensa. Por isso cantarola Vinícius, antagônica. E eles não dão sossego. Os dois. Passam o dia procurando coisas que a atormentem. Olhando-a, em sua condição de fêmea, como se fosse ela causa de todo o alvoroço. Quem sabe. Tanta praia e nenhum banho de mar. Mas o querosene, a corda, a lona, a água, as alergias, o sol rachando, a seda. Dos medos grandes coisa. Paralisada, não conseguia descer a fenda no meio da pedra. Chorou de pânico. Um saiu andando e o outro quase morreu de vergonha: deixo você para trás, fica bom que aqui é a praia dos naufrágios, assim cê podia desaparecer também no fundo do mar. Desapareceu nada. Do banco de trás ela via tudo. O som alto o suficiente para não deixar ninguém falar. Calada, acordava. Fecha isso duma vez sua anta, que eu quero tragar a tarde. Montanhas, lagoas, essa guitarra, a areia, as caras de nós todos. Que é para ver se dá para viver mais intensamente essa falta de alegria. Já que só é possível viver. Um dos guris invoca com a antena do carro de trás. Acha que é a polícia. Só pode gente, olha o tamanho dessa antena, o cara tem um rádio no carro! É, o cara tem um rádio no carro e portanto é a polícia. Os três fumam um atrás do outro os cigarros do maço, único que sobrou. A angústia dos dois encravando nos vidros do automóvel. O carro atrás, prepara para ultrapassar. Todo mundo olha para a frente. Olha e disfarça, tá bom. Tremendo feito uns doentes. O outro vai. Continua enchendo, agora na dianteira, o maldito. Os guris naquela, é a polícia não é a polícia é não é. Vai saber. Foi-se. Ela traga a tarde inteira e sopra, sem esvaziar o dia torto. Ele a mira pelo retrovisor. Oi. Enquanto isso, o rapaz na janela. Esquece do tempo e conta um causo. Lá vem. Como pode uma pessoa viver tantas histórias.
Devaneios e afins.
terça-feira, 23 de março de 2010
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