Devaneios e afins.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Saudosa

Nessa casa de vazios, esqueço a louça, os cadarços, os eletrodomésticos que, por desuso, jamais serão desligados. Desenveneno o corredor, passo. Com carinho, pouso minhas mãos em seus livros. Não tardo a reinar nova, num novo antro de solidão, meu poço. Fica aqui, no desde sempre segundo andar da Saldanha. Há tanto no seu armário, você nem se lembra das cores e dos tecidos. Não olhou pra trás. Ainda. Desisti de suspirar quando passa o vento naquela mesma esquina em que dobrei a infância. Vejo ela viva ali, chantageando meu sentido, levando consigo o aroma de 11 anos quase completos. Há dores que viram passos, espalham-se pelas calçadas. Há também as que enfeitam esse mesmo poço, em que escondo as palavras que nunca serão corretamente pronunciadas, sabe, não levo o mínimo jeito. Se houve algum talento, deixo que as pernas se encarreguem. Ontem teria dito que me levaram a voz. Mas sentada, ouvi-me soando, sem lágrima. Minha cadência dorme, não espera.
Nunca coube tanto nesse prato. Mediocridade que desponta numa gema de ovo, me vi, solitária, amarela e mole, derretendo pelas beiradas. Molenga, sem sabor, feito a amadora que faz de tudo um pouco e desse pouco sobra nada. Para te mostrar no dia de hoje. Havia um lindo quadro, os cupins roeram a casinha do pintor. Por isso protejo seus casacos, aqueles que nunca mais serão usados, já que no seu mundo é calor toda a vida. Minha missão é ser seu contraponto. Servir-te a manhã de novas canções, e eu canto. Com vergonha dos vizinhos que inventaram-me um vazamento. Meu poço. É o absurdo que me cerca, frente de batalha insana contra a umidade e as aranhas emergentes do carpet da falecida. E o tempo passa, e os casacos não me servem, tamanha minha moleza de espalhar-me pelas linhas dos botões. Se não serei eu a pessoa a ocupar seus armários, contento-me em limpá-los. Ensaiando, enquanto peso o peso de um inverno que você abandonou, um sorriso que baste. Simples assim. Feito sair de casa e mirar o Redentor.