Era tarde quando chegaram os padrinhos. Do outro lado da estrada, numa varanda mal-iluminada, Emília pensa na artista que volta e meia os acompanha. Se veio dessa vez. Se trouxe seu retrato. Pintou sem falar nada, insistia que ficasse parada. Imóvel e exterior ao raio de sol que lhe espremia a face.
- Por que vocês não sorriem para as fotos, Emília?
-Como?
-Sabe, Emília. Eu acredito que encontrei aqui o cerne da minha arte. Sou artista popular. Quero pintar sua beleza camponesa, as florzinhas do carreiro e os batizados todos que vocês fazem, mais as festas do Espírito Santo, as criancinhas vestidas de anjo. Imagine só quando o Brasil descobrir o sertão, descobrir quem você é, Emília, o verdadeiro povo brasileiro Emília! E conhecerem os burricos os porquinhos essa pinheirama vistosa, tia Lúcia, seu Marcelino. Se ninguém nem sabe como poderão recordar, né? Abra os olhos, querida. Isso, assim, agora, é, mais para o lado de cá, isso, o queixo para a frente.
Emília na cadeira de balanço no meio da sala. Catarina conversava diferente. Emília achava que ela falava sozinha. Demorava a compreender que era para erguer, ou dobrar, ou olhar para a janela. Lúcia passava para um lado, e depois para o outro. Vinha oferecer chimarrão para Catarina, que quase lhe enfiava o pincel na orelha.
- Não quero, Lúcia, obrigada. Preciso terminar isso hoje ainda.
-Ih! A senhora deixe-me ver como está ficando, pelo menos.
A expressão que fazia à tela arrepiava a mocinha retratada. Emília com dores na cadeira, curiosa e imobilizada pelo movimento dos olhos da pintora. Catarina lhe lembrava a louça nova da casa dos padrinhos.
-Se esse quadro cruzar o mar num navio para ser exposto na América, Emília!
Emília foi um dia o barco dos sonhos de Catarina.
Hoje ela não veio e há muito tempo que não é sertão em Mato Branco.
Devaneios e afins.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Saudosa
Nessa casa de vazios, esqueço a louça, os cadarços, os eletrodomésticos que, por desuso, jamais serão desligados. Desenveneno o corredor, passo. Com carinho, pouso minhas mãos em seus livros. Não tardo a reinar nova, num novo antro de solidão, meu poço. Fica aqui, no desde sempre segundo andar da Saldanha. Há tanto no seu armário, você nem se lembra das cores e dos tecidos. Não olhou pra trás. Ainda. Desisti de suspirar quando passa o vento naquela mesma esquina em que dobrei a infância. Vejo ela viva ali, chantageando meu sentido, levando consigo o aroma de 11 anos quase completos. Há dores que viram passos, espalham-se pelas calçadas. Há também as que enfeitam esse mesmo poço, em que escondo as palavras que nunca serão corretamente pronunciadas, sabe, não levo o mínimo jeito. Se houve algum talento, deixo que as pernas se encarreguem. Ontem teria dito que me levaram a voz. Mas sentada, ouvi-me soando, sem lágrima. Minha cadência dorme, não espera.
Nunca coube tanto nesse prato. Mediocridade que desponta numa gema de ovo, me vi, solitária, amarela e mole, derretendo pelas beiradas. Molenga, sem sabor, feito a amadora que faz de tudo um pouco e desse pouco sobra nada. Para te mostrar no dia de hoje. Havia um lindo quadro, os cupins roeram a casinha do pintor. Por isso protejo seus casacos, aqueles que nunca mais serão usados, já que no seu mundo é calor toda a vida. Minha missão é ser seu contraponto. Servir-te a manhã de novas canções, e eu canto. Com vergonha dos vizinhos que inventaram-me um vazamento. Meu poço. É o absurdo que me cerca, frente de batalha insana contra a umidade e as aranhas emergentes do carpet da falecida. E o tempo passa, e os casacos não me servem, tamanha minha moleza de espalhar-me pelas linhas dos botões. Se não serei eu a pessoa a ocupar seus armários, contento-me em limpá-los. Ensaiando, enquanto peso o peso de um inverno que você abandonou, um sorriso que baste. Simples assim. Feito sair de casa e mirar o Redentor.
Nunca coube tanto nesse prato. Mediocridade que desponta numa gema de ovo, me vi, solitária, amarela e mole, derretendo pelas beiradas. Molenga, sem sabor, feito a amadora que faz de tudo um pouco e desse pouco sobra nada. Para te mostrar no dia de hoje. Havia um lindo quadro, os cupins roeram a casinha do pintor. Por isso protejo seus casacos, aqueles que nunca mais serão usados, já que no seu mundo é calor toda a vida. Minha missão é ser seu contraponto. Servir-te a manhã de novas canções, e eu canto. Com vergonha dos vizinhos que inventaram-me um vazamento. Meu poço. É o absurdo que me cerca, frente de batalha insana contra a umidade e as aranhas emergentes do carpet da falecida. E o tempo passa, e os casacos não me servem, tamanha minha moleza de espalhar-me pelas linhas dos botões. Se não serei eu a pessoa a ocupar seus armários, contento-me em limpá-los. Ensaiando, enquanto peso o peso de um inverno que você abandonou, um sorriso que baste. Simples assim. Feito sair de casa e mirar o Redentor.
terça-feira, 23 de março de 2010
Desfiladeiro
Ela encolhida no banco de trás do automóvel. Eu e eu e eu, os três. Ela atrás eles na frente e ela observa. De nuvens o céu da tarde. A visão, ainda matutina, enrosca nos toques do álcool. Assim engana o estômago. É o sacrifício a pagar por não se arrepender de ter saído com aqueles dois insanos. Ela também. Quando a buscaram em casa, sua mãe não escondeu a cara de decepção. Pegar a estrada a essa hora da noite minha filha, onde é que já se viu. E agora ela, menina, passeia colada na janela. Cheia de saudades e farta de dois e dela. Três, dizem, é um bom número. Quanta solidão cabe em três. Tão sozinhos que querem ser para sempre. Acha suas ausências mais belas que as deles. Meninos fracos, pensa. Por isso cantarola Vinícius, antagônica. E eles não dão sossego. Os dois. Passam o dia procurando coisas que a atormentem. Olhando-a, em sua condição de fêmea, como se fosse ela causa de todo o alvoroço. Quem sabe. Tanta praia e nenhum banho de mar. Mas o querosene, a corda, a lona, a água, as alergias, o sol rachando, a seda. Dos medos grandes coisa. Paralisada, não conseguia descer a fenda no meio da pedra. Chorou de pânico. Um saiu andando e o outro quase morreu de vergonha: deixo você para trás, fica bom que aqui é a praia dos naufrágios, assim cê podia desaparecer também no fundo do mar. Desapareceu nada. Do banco de trás ela via tudo. O som alto o suficiente para não deixar ninguém falar. Calada, acordava. Fecha isso duma vez sua anta, que eu quero tragar a tarde. Montanhas, lagoas, essa guitarra, a areia, as caras de nós todos. Que é para ver se dá para viver mais intensamente essa falta de alegria. Já que só é possível viver. Um dos guris invoca com a antena do carro de trás. Acha que é a polícia. Só pode gente, olha o tamanho dessa antena, o cara tem um rádio no carro! É, o cara tem um rádio no carro e portanto é a polícia. Os três fumam um atrás do outro os cigarros do maço, único que sobrou. A angústia dos dois encravando nos vidros do automóvel. O carro atrás, prepara para ultrapassar. Todo mundo olha para a frente. Olha e disfarça, tá bom. Tremendo feito uns doentes. O outro vai. Continua enchendo, agora na dianteira, o maldito. Os guris naquela, é a polícia não é a polícia é não é. Vai saber. Foi-se. Ela traga a tarde inteira e sopra, sem esvaziar o dia torto. Ele a mira pelo retrovisor. Oi. Enquanto isso, o rapaz na janela. Esquece do tempo e conta um causo. Lá vem. Como pode uma pessoa viver tantas histórias.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Caminhada
Hoje pensei que você gostaria muito daqui. Lá longe seus passos. Brotam nas estradas. Sinuosas quanto tudo que eu pedia, por nós e por todos. Num sonho vejo e agradeço. Pela terra. Pelas raízes. O que se perdeu, todavia, é questão de todo dia. Cotidiana, contamina. E no embalo dos carreiros vejo sua caminhada serena, mas seria eu, então, uma das tantas moças que espera? Vejo meu coração como esse arroiozinho. Tímido nasce, correndo para outra corrente mais encorpada. E ao chegar no mar, despe-se o seu passado de pinhal. Que ser. Semente e crescer. Para você cortar e morrer.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Plaza de Armas
Alvorada de cargas nas costas, baja! baja! baja! Vira ali, diz o senhor uma esquina que se vira é uma porta que se abre. A Plaza é de Armas mas só há cruzes em volta. Terror que treme os ossos da gente que chega e imagina por onde começo a olhar, cavocar entre as ruelazinhas uma senhora Magda,enviada do além no caminho pedregoso.
A gente não demorou a perceber: os incas dormem nas pedras e jamais poderão matá-los. Ainda assim com cruzes mataram-nos todos.
Conversa de um
Na esquina do olho uma espera qualquer palavra que seja ,você quer. Não digo. Por que sempre tem que ter opinião e emendar um banal rompante do silêncio, laço, que talvez seja o único e que atiramos. No rebuliço de um papo furado contento-me com a voz alheia, eco no silêncio do fim de tarde. Não há tempo aí fora não, enganaram-nos.
É só uma noite que cai
É só uma noite que cai
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Em aula
Desconcentro em transe no berreiro
de uns periquitos, escapamentos,
moleques e sabiás - penso
como são belos os passarinhos!
e aí é que tudo se perde em meu pensar
A tarde termino pendurada
em janelas através de uma janela
Os livros e as letras e os senhores percebem
e reprovam: olha menina você
anda muito distraída
Digo que não
o barulho
Precisava de um café
mas as olheiras
de uns periquitos, escapamentos,
moleques e sabiás - penso
como são belos os passarinhos!
e aí é que tudo se perde em meu pensar
A tarde termino pendurada
em janelas através de uma janela
Os livros e as letras e os senhores percebem
e reprovam: olha menina você
anda muito distraída
Digo que não
o barulho
Precisava de um café
mas as olheiras
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