Devaneios e afins.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tédio

cada dia tem um novo som

para soar em meu passo

sem compasso

assim

ó

por livre e espontânea vontade


mas sempre tem que dizer quando
acaba a piada
porque eles não entendem não
te juro

êta cidade fria!

Lugar comum

Quanto mais penso
dispenso
teu sorriso
enrijece

tua juventude,
envelhece

Essas mesmas escadas
escalas frouxo enquanto eu
pendente em cada degrau me vejo
na corda bamba da lembrança
no desequilíbrio ali
parado no tempo
e eu não desejo

Passei e passaste
como areia no relógio

Sim, deve haver coisa
melhor que passar a tarde e as noites cimentando
mais rostos nas mesmas paredes
que nem são mais da mesma cor
nem mesmo os meus amigos
são mais da mesma cor
e todas aquelas canções que eu te cantei
desaprendi

Eu, que sou tão afeita a sonhos

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Domingo de sol

Uma leve sensação de que a cabeça vai doer depois. Ele me dá a mão e sua risada. Engraçada, eu e ele procuramos uma sombra e rostos desconhecidos. Já nos bastam as saudades que carregamos. Uma máquina fotográfica talvez vá buscá-los na grama da pracinha, embaixo de uma árvore. As araucárias nos trazem ao mundo, esse que a gente vive e que não há em lugar nenhum. Sob a árvore deitados, repetimos mentalmente o ruído do dia. E eu lhe canto uma cantiga do Seu Renato, “eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar”. Mas de onde essa agora. É bonito, sim. Ele concorda, ahãm, e também canta, e por um momento é como se a gente tivesse existido desde sempre. Vamos embora. Cada passo é um calor a mais na cidade dos extremos. À noite, descobrimos toda a obra de Villa ali, naquele micro mundo maravilha. Lembranças que enrubescem trazem consigo uma vontade de dançar. Pergunto a ele se se arrepende de algo que tenha feito. Filosoficamente não. Mas concretamente sim. Entendo perfeitamente e me vejo naquele ano que passou. Foi-se. Não como o domingo, que eu tanto quero todo dia.

Sábado de sol

Havia uma festa em cada dia naqueles dias de corredores. De lembrar os passos feitos. De desfazer uma saudade. Levava a semana inteira regando a esperança de ser mais uma vez alvo e vítima de um sorriso besta. No sentimento soava como canção de amor, eu e meus dezesseis anos, meus olhos verdes minha tinta de cabelo meu aparelho meu negro acorde que ela não gostou e era tudo que eu tinha. E daí, se ela nem gostava de nada que eu gosto. A não ser uma nota que eu lhe abri. Dizia do meu amor. Ela não entendeu que eu passava o sábado a viver e a convencer espelhos de banheiro dos delírios do meu desejo. Simples e puramente assim. Pois o que havia de mais. Naquele sol de Villa-Lobos era o que servia para satisfazer a pira de diversão. Adolescência, entrega-me na mais óbvia contramão. Um cheiro quaisquer de álcool pele metal choro. E eu não chorei, nem uma lágrima sequer. É que eu nem sofria sabe, até gostava dessa história de viver em paz. Queria mesmo era saber de um pensamento em queda livre. Um amor atrás da porta.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

La promenade

Ainda que finja evitar
fico da cor do vestido
escondida atrás das perguntas
à esquerda do vaso russo no segundo andar
O quadro sou eu
de mãos dadas você sorri eu vôo
É um abraço em mim aconchegado
que se dá e me dou e que havia estado esquecido
só para ser lembrado em sua promenade, c'est été dans mes rêves
e a gente se dá as mãos e você sorri e eu vôo
Roxo em flor o peito
faço a ele uma canção impossível
porque do amor hoje
só me resta sentir em silêncio
a saudade de passear
pelo mundo de mãos dadas