Devaneios e afins.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sonho aéreo

Inevitavelmente aflita, ela não sabe o que está acontecendo. Viagem mental, miragem no céu de outono, neo-colonialismo explícito. Supresa a garotinha olha para o céu , ávida por experimentar a nova invenção dos adultos que lhe parecem tão igualmente infantis. São dois balões. Funciona assim: amarra-se uma corda de tecido macio em cada um deles, de modo que seus dedos fiquem confortáveis ao segurá-los na altitude; depois, coloca-se um balão em cada mão, um na direita e um na esquerda. Finalmente, ao estar bem seguro, com seus dois balões alaranjados - pois todos os balões desse invento são alaranjados, para lá em cima iludirem as estrelas com a idéia de novas constelações - um em cada mão, toma-se o impulso. E assim, levantar vôo. Como as centenas de pessoas que invadem a paisagem com seu novo meio de transporte. A ameaça de congestionamento celeste, ou a possível intervenção de miradores mal-intencionados, nada disso entra em questão nesse momento. É como se o outro e suas violências tivessem sido suprimidos pela mágica que agora se consolidou, uma humanidade onde todos podem voar e ninguém atentará contra a vida. Momento de catarse. A garota quer experimentar também. Através dos corredores entre as casas, ela olha, para cima e para baixo, desejando, pedindo, suando por encontrar num canto escondido suas laranjas voadoras. E elas lhe vêm. Imploram pelo céu. Menina desconfiada, ela segue as instruções. Um balão em cada mão. A princípio, ainda encarcerada pelo medo do fantástico, seus impulsos são fracos. Não vai muito além de vôos rasantes sobre o chão. Flutua, olhando para baixo. E agora- ela pensa - como faço para alcançar os seres balões lá no alto? Desesperadora sensação de não confiar em seus próprios braços, se eles serão fortes o bastante para aguentarem ficar pendurados em tecidos de algodão argila, soltos lá no alto e seguros, como? Cai-lhe de repente a ficha de que não há cadeirinha de passeio, se quiser voar terá que ser de pé, mas também, ela pensa, se eu quiser sentar fico no chão. Convicta de que mais vale morrer tentando do que invejar a diversão alheia, ela salta. Dez metros, vinte metros, cinquenta, cem metros e ela está acima das montanhas que rodeiam a cidade como uma fortaleza natural da qual ela nunca havia se dado conta. Lá em cima, todos voam. Com capacetes, porém. Mas ela não se preocupa com isso nas alturas. Por vezes, engole alguns fios de cabelo, mas rapidamente coloca-se a favor do vento a fim de evitar a cegueira cabeluda. Melhor mesmo seria não ter cabelo, ela pensa. Visto de cima, seu mundo é um labirinto. Concreto, terra, água, florestas, automóveis, vilarejos e plantações, tudo num plano que não se vê do chão. Tão pequena sua ilusão, tão grande a descoberta do que há em volta. Meu mundo é mesmo muito lindo. Como é bom viver. Quem inventou essas bexigas é mesmo um santo. E depois de poucos minutos sobrevoando o plano de sua existência, ela resolve descer. Acredita que é melhor não abusar, afinal de contas não passa de uma iniciante. Não é bom abusar. Ao pousar, dá-se por entendida da gravidade. Invisível imperativo, comprova sua eficácia. O peso se torna claro. Sorriso na cara, ela corre por entre as ruelas com seus dois balões na mão. Os espaços estão tomados por pessoas que olham para o céu, com seus balões e sua dúvida, tentar ou não tentar, voar ou prender. Momento do absurdo. Ela esteve lá. Também é uma estrela alaranjada. Inusitadamente, uma criança grande lhe atravessa a frente, encarando-a como uma professora quando quer saber o que você está fazendo. Você também vai voar? - ela pergunta, notando que a criança não tem balões nas mãos. Sem responder, a garotona lhe toma um balão e foge. Ela se cala. Não protesta, não vai atrás. Agora que consegui, vem uma gorda e leva embora meu brinquedo. Ela com um balão. Eu com um balão. Não serve de nada para nenhuma das duas.

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