Devaneios e afins.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sombrio

Transparentemente desengonçada, entra em casa, embriagada, Olívia. Para não perder o costume vai, batendo-se nas paredes, até o banheiro. Gosta de se trancar ali. Mas que coisa, trancar-se no banheiro. Não há mais ninguém naquela casa, ninguém além dela, a raspa do prato, o prato na geladeira, fique longe da geladeira, não abra a porta das insatisfações. Comer é um prazer? Para quem? Sentada na privada, ela olha para suas mãos. As unhas um pouco opacas, esmalte vermelho velho, combina exatamente com o sentimento que lhe assola. Papel higiênico, lixo, meia-calça para cima, saia para baixo, um botão a apertare o vermelho a desabar. Resta ainda o espelho a encarar. Ele falou das unhas e dos cabelos. Meus. Mas de todos os outros falou tanto também. Coisas a que eu mesma não me atenho, talvez por uma falha de percepção estética, talvez por uma simples diferença. Será que as pessoas falam de aparências por que náo têm mais nada a dizer? Ele. Se for isso mesmo é pior do que eu imaginava. Tanta coisa para falar que é melhor não falar nada. Silêncio, estrada da sabedoria. Mas há sempre uma cidade no meio do caminho. Um quê a mais a experimentar. O mundo é hoje, Olívia. Meu azeitinho indispensável. Delícia. Bebo tanto, por tantas horas, e falo tanta coisa que depois não me lembro, por que, por que. Isso é socializar, ou é simplesmente sucumbir, admitir que é preciso deixar as palavras saírem assim, fluidas, já existe tanta coisa que se guarda, até sexta-feira, quando se joga tudo isso para fora - mas será que se joga mesmo?- quando se pode falar e eles ouvem e você também ouve tanta coisa, ele também fala tanto e não fala mais olhando para mim. São meus dedos opacos? Talvez. Cantei para ele e ele foi receber meus convidados. Esquisito mesmo, ou é o tipo de coisa que não deve ser levada em consideração, afinal de contas, cada um tem suas peculiaridades. Olívia lava o rosto. Por pouco um r no lugar do l não transforma tudo em desastre. Mas que pequenice, ela pensa. Que pensamento estúpido. A vida é muito mais do que o que aparenta, um r ou um l. Esfrega a toalha, macia, na cara lavada. Dá uma última olhada para o próprio rosto refletido e destrava a porta. Mania de se trancar, Olívia, mas o que é isso. Pelo corredor ela caminha, batendo-se nas paredes até chegar ao seu quarto. Ele falou de minhas unhas opacas. Mas quem repara nisso. Ele, o receptor de meus convidados. Mestre de cerimônias, ser e mônias, tinta de cabelo repelente de gente. Impressões são tudo quando um homem se arma para não falar com você.

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