O mês inteiro o gato quase que de botas, tão elegante ele é,tentou entrar em minha mala. Admiro-te ser! - comunicam minhas mãos. Que bom te olhar, de perto e de longe. Você, rara beleza, oriente que levanta o sol da manhã. Alegria ao acordar e abrir a porta.
A elegância, gostaria de pegar um tantinho apenas que fosse,mas ela permanece sacra e proibida,grosseira nossa anatomia. Você sabe. Tenho que ir, mesmo que um pouco triste.Vamos comigo gatinho!Que só de te olhar, estou satisfeita, em minha torrencial leve existência.
Devaneios e afins.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Amor em vão
Sentimental, o garoto diz ao desconhecido no balcão que não pode mais viver assim. Perplexo no tédio de sua dor,não entende a demora em desvencilhar-se desses nós. Queria sim, ser feliz, como ela. Os nós, ele os teceu com cuidado. Para cada um, feitiço mental, simpatia de amor eterno, mais uma etapa cumprida, e ele, um pouco mais contente, ainda não sabia, que até mesmo sua adorável confecção, era finita.
Até que um dia todos os nós estavam atados. Mas o resultado, um lindo regalo, era para ele. Só. Pois até o prazer de entregá-lo, jamais passaria, de palpite imaginário. E não seria também tudo aquilo que lhe disse, ele pensa. Arrastando-se com um penar tão triste sozinho, quer unhas que arranhem sua dor. O desconhecido finge interesse, gosta de sofredores. Agrada-lhe saber que alguém agora chora, vai entender. Após um trago no cigarro, e um gole na bebida alheia, ele resolve lhe falar - rapaz, não achas que já é demais? Sua princesa, jogou seus nós na areia. E o mar levou e engoliu tudo. História de amor que termina, só tem um final. Vai dizer que nao sabia? Onde esteve você esse tempo todo? engoliu açúcar demais na infancia, ficou bobo e eslouquiçado. Sim, admite o rapaz, agora vivo na Calle Amargura.
Até que um dia todos os nós estavam atados. Mas o resultado, um lindo regalo, era para ele. Só. Pois até o prazer de entregá-lo, jamais passaria, de palpite imaginário. E não seria também tudo aquilo que lhe disse, ele pensa. Arrastando-se com um penar tão triste sozinho, quer unhas que arranhem sua dor. O desconhecido finge interesse, gosta de sofredores. Agrada-lhe saber que alguém agora chora, vai entender. Após um trago no cigarro, e um gole na bebida alheia, ele resolve lhe falar - rapaz, não achas que já é demais? Sua princesa, jogou seus nós na areia. E o mar levou e engoliu tudo. História de amor que termina, só tem um final. Vai dizer que nao sabia? Onde esteve você esse tempo todo? engoliu açúcar demais na infancia, ficou bobo e eslouquiçado. Sim, admite o rapaz, agora vivo na Calle Amargura.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
mês de novo
Sensível que sou
comemoro com pavor
o tempo que voou
Passamos direto
como projétil perdido
ou para sempre seremos reféns
dessa flecha de cupido?
comemoro com pavor
o tempo que voou
Passamos direto
como projétil perdido
ou para sempre seremos reféns
dessa flecha de cupido?
domingo, 26 de julho de 2009
Frente fria
Todas as pétalas de rosa, os laços de cetim, as gaivotas do pôr-do-sol do nosso lirismo descabido meu amor, são retalhos de um mistério que nos escapa,vendados os nossos olhos. Saudade, é mola de delírio. Veja como todas as nossas tolas fantasias afloram nessa estação de morte, nesse silêncio de inverno que chega em mim como um eco do sul, distância, que se dissolve quando, com uma simples expressão, sua imagem preenche todos os meus motivos. Todos. É a música que não quer calar.
O sorriso a menos no dia de hoje.
É preciso escolher não sofrer.
É a coisa mais sã que poderia ser feita de olhos obstruídos pelo horizonte que não nos alcança. De braços cansados de não se abraçar.
O sorriso a menos no dia de hoje.
É preciso escolher não sofrer.
É a coisa mais sã que poderia ser feita de olhos obstruídos pelo horizonte que não nos alcança. De braços cansados de não se abraçar.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Inverno ao avesso
Preparei um tema tolo
um edifício novo em folha
para meu ser que hoje sorri
um sorriso de praia em julho
um mundinho antropológico que sereno
vai indo embora lá longe
naquele naviozão certeiro
para a África, para a Antártida
para fora das páginas dos franceses
ingleses
americanos
Eles correm na areia
passeiam em volta da gente
amam isso, é lindo, dizem
Então por que, por que
eu tenho que entender vocês
se até ontem
nem sabia que era possível
trinta graus em pleno mês de julho
Invento-me entre as buzinas
bombeiros e sirenes
bicicletas para mim e você
passeios com meus outros pedaços
Eu sou isso mesmo
mas aí
eu nao sei o que acontece
é que viver é precioso
mas sempre é preciso ser mais um pouco
sempre
Aqui eu me reconheço
na mostarda da camisa
e assim me convenço
que vergonha
é para quem tem tempo a perder
um edifício novo em folha
para meu ser que hoje sorri
um sorriso de praia em julho
um mundinho antropológico que sereno
vai indo embora lá longe
naquele naviozão certeiro
para a África, para a Antártida
para fora das páginas dos franceses
ingleses
americanos
Eles correm na areia
passeiam em volta da gente
amam isso, é lindo, dizem
Então por que, por que
eu tenho que entender vocês
se até ontem
nem sabia que era possível
trinta graus em pleno mês de julho
Invento-me entre as buzinas
bombeiros e sirenes
bicicletas para mim e você
passeios com meus outros pedaços
Eu sou isso mesmo
mas aí
eu nao sei o que acontece
é que viver é precioso
mas sempre é preciso ser mais um pouco
sempre
Aqui eu me reconheço
na mostarda da camisa
e assim me convenço
que vergonha
é para quem tem tempo a perder
terça-feira, 14 de julho de 2009
Pela manhã
Em êxtase
desacordo
Acordar, hoje,
é não existir
num sonho bom
Elefante branco
no fundo do poço
da imaginação
imaginária
imagética
Nego o mal
humor matinal
Deveria ser veludo
mas é bom bril
na voz
Onde está o pensamento que eu vivia?
O que você está falando?
Largue-me
- o elefante
branco!
Meu rosto
cerrado
Meu silêncio
Deixe
que meu mistério há de trazer seu sonho bom
minha poesia
desacordo
Acordar, hoje,
é não existir
num sonho bom
Elefante branco
no fundo do poço
da imaginação
imaginária
imagética
Nego o mal
humor matinal
Deveria ser veludo
mas é bom bril
na voz
Onde está o pensamento que eu vivia?
O que você está falando?
Largue-me
- o elefante
branco!
Meu rosto
cerrado
Meu silêncio
Deixe
que meu mistério há de trazer seu sonho bom
minha poesia
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Sombrio
Transparentemente desengonçada, entra em casa, embriagada, Olívia. Para não perder o costume vai, batendo-se nas paredes, até o banheiro. Gosta de se trancar ali. Mas que coisa, trancar-se no banheiro. Não há mais ninguém naquela casa, ninguém além dela, a raspa do prato, o prato na geladeira, fique longe da geladeira, não abra a porta das insatisfações. Comer é um prazer? Para quem? Sentada na privada, ela olha para suas mãos. As unhas um pouco opacas, esmalte vermelho velho, combina exatamente com o sentimento que lhe assola. Papel higiênico, lixo, meia-calça para cima, saia para baixo, um botão a apertare o vermelho a desabar. Resta ainda o espelho a encarar. Ele falou das unhas e dos cabelos. Meus. Mas de todos os outros falou tanto também. Coisas a que eu mesma não me atenho, talvez por uma falha de percepção estética, talvez por uma simples diferença. Será que as pessoas falam de aparências por que náo têm mais nada a dizer? Ele. Se for isso mesmo é pior do que eu imaginava. Tanta coisa para falar que é melhor não falar nada. Silêncio, estrada da sabedoria. Mas há sempre uma cidade no meio do caminho. Um quê a mais a experimentar. O mundo é hoje, Olívia. Meu azeitinho indispensável. Delícia. Bebo tanto, por tantas horas, e falo tanta coisa que depois não me lembro, por que, por que. Isso é socializar, ou é simplesmente sucumbir, admitir que é preciso deixar as palavras saírem assim, fluidas, já existe tanta coisa que se guarda, até sexta-feira, quando se joga tudo isso para fora - mas será que se joga mesmo?- quando se pode falar e eles ouvem e você também ouve tanta coisa, ele também fala tanto e não fala mais olhando para mim. São meus dedos opacos? Talvez. Cantei para ele e ele foi receber meus convidados. Esquisito mesmo, ou é o tipo de coisa que não deve ser levada em consideração, afinal de contas, cada um tem suas peculiaridades. Olívia lava o rosto. Por pouco um r no lugar do l não transforma tudo em desastre. Mas que pequenice, ela pensa. Que pensamento estúpido. A vida é muito mais do que o que aparenta, um r ou um l. Esfrega a toalha, macia, na cara lavada. Dá uma última olhada para o próprio rosto refletido e destrava a porta. Mania de se trancar, Olívia, mas o que é isso. Pelo corredor ela caminha, batendo-se nas paredes até chegar ao seu quarto. Ele falou de minhas unhas opacas. Mas quem repara nisso. Ele, o receptor de meus convidados. Mestre de cerimônias, ser e mônias, tinta de cabelo repelente de gente. Impressões são tudo quando um homem se arma para não falar com você.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Sonho aéreo
Inevitavelmente aflita, ela não sabe o que está acontecendo. Viagem mental, miragem no céu de outono, neo-colonialismo explícito. Supresa a garotinha olha para o céu , ávida por experimentar a nova invenção dos adultos que lhe parecem tão igualmente infantis. São dois balões. Funciona assim: amarra-se uma corda de tecido macio em cada um deles, de modo que seus dedos fiquem confortáveis ao segurá-los na altitude; depois, coloca-se um balão em cada mão, um na direita e um na esquerda. Finalmente, ao estar bem seguro, com seus dois balões alaranjados - pois todos os balões desse invento são alaranjados, para lá em cima iludirem as estrelas com a idéia de novas constelações - um em cada mão, toma-se o impulso. E assim, levantar vôo. Como as centenas de pessoas que invadem a paisagem com seu novo meio de transporte. A ameaça de congestionamento celeste, ou a possível intervenção de miradores mal-intencionados, nada disso entra em questão nesse momento. É como se o outro e suas violências tivessem sido suprimidos pela mágica que agora se consolidou, uma humanidade onde todos podem voar e ninguém atentará contra a vida. Momento de catarse. A garota quer experimentar também. Através dos corredores entre as casas, ela olha, para cima e para baixo, desejando, pedindo, suando por encontrar num canto escondido suas laranjas voadoras. E elas lhe vêm. Imploram pelo céu. Menina desconfiada, ela segue as instruções. Um balão em cada mão. A princípio, ainda encarcerada pelo medo do fantástico, seus impulsos são fracos. Não vai muito além de vôos rasantes sobre o chão. Flutua, olhando para baixo. E agora- ela pensa - como faço para alcançar os seres balões lá no alto? Desesperadora sensação de não confiar em seus próprios braços, se eles serão fortes o bastante para aguentarem ficar pendurados em tecidos de algodão argila, soltos lá no alto e seguros, como? Cai-lhe de repente a ficha de que não há cadeirinha de passeio, se quiser voar terá que ser de pé, mas também, ela pensa, se eu quiser sentar fico no chão. Convicta de que mais vale morrer tentando do que invejar a diversão alheia, ela salta. Dez metros, vinte metros, cinquenta, cem metros e ela está acima das montanhas que rodeiam a cidade como uma fortaleza natural da qual ela nunca havia se dado conta. Lá em cima, todos voam. Com capacetes, porém. Mas ela não se preocupa com isso nas alturas. Por vezes, engole alguns fios de cabelo, mas rapidamente coloca-se a favor do vento a fim de evitar a cegueira cabeluda. Melhor mesmo seria não ter cabelo, ela pensa. Visto de cima, seu mundo é um labirinto. Concreto, terra, água, florestas, automóveis, vilarejos e plantações, tudo num plano que não se vê do chão. Tão pequena sua ilusão, tão grande a descoberta do que há em volta. Meu mundo é mesmo muito lindo. Como é bom viver. Quem inventou essas bexigas é mesmo um santo. E depois de poucos minutos sobrevoando o plano de sua existência, ela resolve descer. Acredita que é melhor não abusar, afinal de contas não passa de uma iniciante. Não é bom abusar. Ao pousar, dá-se por entendida da gravidade. Invisível imperativo, comprova sua eficácia. O peso se torna claro. Sorriso na cara, ela corre por entre as ruelas com seus dois balões na mão. Os espaços estão tomados por pessoas que olham para o céu, com seus balões e sua dúvida, tentar ou não tentar, voar ou prender. Momento do absurdo. Ela esteve lá. Também é uma estrela alaranjada. Inusitadamente, uma criança grande lhe atravessa a frente, encarando-a como uma professora quando quer saber o que você está fazendo. Você também vai voar? - ela pergunta, notando que a criança não tem balões nas mãos. Sem responder, a garotona lhe toma um balão e foge. Ela se cala. Não protesta, não vai atrás. Agora que consegui, vem uma gorda e leva embora meu brinquedo. Ela com um balão. Eu com um balão. Não serve de nada para nenhuma das duas.
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