Devaneios e afins.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A queda

Sólido como o afeto que lhe tenho, ele despenca.
Quando de novo nos encontramos
veio como sempre, muito falante
embora a falta de sentido
de um olhar perdido.
Ainda bem que você voou
e pousou.
Quando eu voltar por favor
esqueça da minha mala
não me dê motivos para chorar
quando Curitiba for outra vez
a irremediável realidade.
Nesse monte de paredes cheias de vocês
já me basta colar quadros de saudades.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Sobre lobas

não sei o que há de ser de lá
nesse Oriente que lhe escapou,
mas as lágrimas que eu ouvia,
repetia, sem entender seu mistério,
uma língua esquisita que se foi
como quase todo o resto
a não ser o que sobrou,
uns bilhetinhos de papel que ando a catar
por aí
e cá estou presa ao seu nome,
você, de quem só tenho uma vaga noção de tricô
bolo de chocolate com leite condensado
uma folhinha de manjericão no bolso
um cheiro que deságua na lembrança
de que sou loba e as lobas sofrem - você dizia -
elas têm muitos filhotinhos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Bêbado Blues

Pense, amigo
sinta
um pouco
mais
e fale
muito menos
Assim a gente não se vê às traças
a abraçar o inferno de Dante no copo de cerveja
em plena sexta-feira
Para falar tem a semana inteira
agora a gente só queria rir
entendeu
rir

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Infância

"And all the children are insane
Waiting for the summer rain"


Vi você se vendo
entrar regresso entre crianças e balões
de cores tão que eu nem sei mais
se não estava menina ali também

Já que não veio nenhum Peter
cabe meu refúgio nessas fábulas
que eu mesma te trago em minha condição
humana, sou aquela criança que você viu
e me trouxe, Jim,
aos parabéns de minhas irmãs
aos gatinhos do quintal
ao oceano que eu vivi
there is no end, Jim
porque o tempo todo
eles estão atrás da porta
sorrindo para mim
e só agora eu consegui abrir
para ver tudo de novo

Trobriand

Toda tarde é uma roda
a gente fica sentadinho feito escola
os blocos de páginas devidamente aprovados
em seus tons de branco e preto a desfazer
anseios que, quem sabe, talvez,
a jornada vai levar
No caminho o senhorzinho se deixou
para trás, pelo argonauta,
descoberta de amor
Em mente estendo a imagem
ao que vejo pelo círculo de tais
rostos dos quais tenho pouco mais que um olhar e
ainda assim, na tarde inóspita
abre-se uma varanda cor-de-rosa
e deixa entrar aquele vento lá da Oceania
um sopro de mistério que põe você
bobo a reconhecer um quê de seu na face do outro
seja isso satisfação
seja isso o fim de um eu

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tédio

cada dia tem um novo som

para soar em meu passo

sem compasso

assim

ó

por livre e espontânea vontade


mas sempre tem que dizer quando
acaba a piada
porque eles não entendem não
te juro

êta cidade fria!

Lugar comum

Quanto mais penso
dispenso
teu sorriso
enrijece

tua juventude,
envelhece

Essas mesmas escadas
escalas frouxo enquanto eu
pendente em cada degrau me vejo
na corda bamba da lembrança
no desequilíbrio ali
parado no tempo
e eu não desejo

Passei e passaste
como areia no relógio

Sim, deve haver coisa
melhor que passar a tarde e as noites cimentando
mais rostos nas mesmas paredes
que nem são mais da mesma cor
nem mesmo os meus amigos
são mais da mesma cor
e todas aquelas canções que eu te cantei
desaprendi

Eu, que sou tão afeita a sonhos

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Domingo de sol

Uma leve sensação de que a cabeça vai doer depois. Ele me dá a mão e sua risada. Engraçada, eu e ele procuramos uma sombra e rostos desconhecidos. Já nos bastam as saudades que carregamos. Uma máquina fotográfica talvez vá buscá-los na grama da pracinha, embaixo de uma árvore. As araucárias nos trazem ao mundo, esse que a gente vive e que não há em lugar nenhum. Sob a árvore deitados, repetimos mentalmente o ruído do dia. E eu lhe canto uma cantiga do Seu Renato, “eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar”. Mas de onde essa agora. É bonito, sim. Ele concorda, ahãm, e também canta, e por um momento é como se a gente tivesse existido desde sempre. Vamos embora. Cada passo é um calor a mais na cidade dos extremos. À noite, descobrimos toda a obra de Villa ali, naquele micro mundo maravilha. Lembranças que enrubescem trazem consigo uma vontade de dançar. Pergunto a ele se se arrepende de algo que tenha feito. Filosoficamente não. Mas concretamente sim. Entendo perfeitamente e me vejo naquele ano que passou. Foi-se. Não como o domingo, que eu tanto quero todo dia.

Sábado de sol

Havia uma festa em cada dia naqueles dias de corredores. De lembrar os passos feitos. De desfazer uma saudade. Levava a semana inteira regando a esperança de ser mais uma vez alvo e vítima de um sorriso besta. No sentimento soava como canção de amor, eu e meus dezesseis anos, meus olhos verdes minha tinta de cabelo meu aparelho meu negro acorde que ela não gostou e era tudo que eu tinha. E daí, se ela nem gostava de nada que eu gosto. A não ser uma nota que eu lhe abri. Dizia do meu amor. Ela não entendeu que eu passava o sábado a viver e a convencer espelhos de banheiro dos delírios do meu desejo. Simples e puramente assim. Pois o que havia de mais. Naquele sol de Villa-Lobos era o que servia para satisfazer a pira de diversão. Adolescência, entrega-me na mais óbvia contramão. Um cheiro quaisquer de álcool pele metal choro. E eu não chorei, nem uma lágrima sequer. É que eu nem sofria sabe, até gostava dessa história de viver em paz. Queria mesmo era saber de um pensamento em queda livre. Um amor atrás da porta.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

La promenade

Ainda que finja evitar
fico da cor do vestido
escondida atrás das perguntas
à esquerda do vaso russo no segundo andar
O quadro sou eu
de mãos dadas você sorri eu vôo
É um abraço em mim aconchegado
que se dá e me dou e que havia estado esquecido
só para ser lembrado em sua promenade, c'est été dans mes rêves
e a gente se dá as mãos e você sorri e eu vôo
Roxo em flor o peito
faço a ele uma canção impossível
porque do amor hoje
só me resta sentir em silêncio
a saudade de passear
pelo mundo de mãos dadas

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Bonito

O mês inteiro o gato quase que de botas, tão elegante ele é,tentou entrar em minha mala. Admiro-te ser! - comunicam minhas mãos. Que bom te olhar, de perto e de longe. Você, rara beleza, oriente que levanta o sol da manhã. Alegria ao acordar e abrir a porta.
A elegância, gostaria de pegar um tantinho apenas que fosse,mas ela permanece sacra e proibida,grosseira nossa anatomia. Você sabe. Tenho que ir, mesmo que um pouco triste.Vamos comigo gatinho!Que só de te olhar, estou satisfeita, em minha torrencial leve existência.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Amor em vão

Sentimental, o garoto diz ao desconhecido no balcão que não pode mais viver assim. Perplexo no tédio de sua dor,não entende a demora em desvencilhar-se desses nós. Queria sim, ser feliz, como ela. Os nós, ele os teceu com cuidado. Para cada um, feitiço mental, simpatia de amor eterno, mais uma etapa cumprida, e ele, um pouco mais contente, ainda não sabia, que até mesmo sua adorável confecção, era finita.
Até que um dia todos os nós estavam atados. Mas o resultado, um lindo regalo, era para ele. Só. Pois até o prazer de entregá-lo, jamais passaria, de palpite imaginário. E não seria também tudo aquilo que lhe disse, ele pensa. Arrastando-se com um penar tão triste sozinho, quer unhas que arranhem sua dor. O desconhecido finge interesse, gosta de sofredores. Agrada-lhe saber que alguém agora chora, vai entender. Após um trago no cigarro, e um gole na bebida alheia, ele resolve lhe falar - rapaz, não achas que já é demais? Sua princesa, jogou seus nós na areia. E o mar levou e engoliu tudo. História de amor que termina, só tem um final. Vai dizer que nao sabia? Onde esteve você esse tempo todo? engoliu açúcar demais na infancia, ficou bobo e eslouquiçado. Sim, admite o rapaz, agora vivo na Calle Amargura.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

mês de novo

Sensível que sou
comemoro com pavor
o tempo que voou
Passamos direto
como projétil perdido
ou para sempre seremos reféns
dessa flecha de cupido?

domingo, 26 de julho de 2009

Frente fria

Todas as pétalas de rosa, os laços de cetim, as gaivotas do pôr-do-sol do nosso lirismo descabido meu amor, são retalhos de um mistério que nos escapa,vendados os nossos olhos. Saudade, é mola de delírio. Veja como todas as nossas tolas fantasias afloram nessa estação de morte, nesse silêncio de inverno que chega em mim como um eco do sul, distância, que se dissolve quando, com uma simples expressão, sua imagem preenche todos os meus motivos. Todos. É a música que não quer calar.
O sorriso a menos no dia de hoje.
É preciso escolher não sofrer.
É a coisa mais sã que poderia ser feita de olhos obstruídos pelo horizonte que não nos alcança. De braços cansados de não se abraçar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Inverno ao avesso

Preparei um tema tolo
um edifício novo em folha
para meu ser que hoje sorri
um sorriso de praia em julho
um mundinho antropológico que sereno
vai indo embora lá longe
naquele naviozão certeiro
para a África, para a Antártida
para fora das páginas dos franceses
ingleses
americanos
Eles correm na areia
passeiam em volta da gente
amam isso, é lindo, dizem
Então por que, por que
eu tenho que entender vocês
se até ontem
nem sabia que era possível
trinta graus em pleno mês de julho
Invento-me entre as buzinas
bombeiros e sirenes
bicicletas para mim e você
passeios com meus outros pedaços
Eu sou isso mesmo
mas aí
eu nao sei o que acontece
é que viver é precioso
mas sempre é preciso ser mais um pouco
sempre
Aqui eu me reconheço
na mostarda da camisa
e assim me convenço
que vergonha
é para quem tem tempo a perder

terça-feira, 14 de julho de 2009

Lady Gaga usa bustiês que soltam fogos de artifício.
Isso é que é criar uma imagem!
Cara, que hilário!
Genial!
E eu, que acreditava que passaria as férias
abraçada em teoria!
Até Jesus está dando risada!

Pela manhã

Em êxtase
desacordo
Acordar, hoje,
é não existir
num sonho bom
Elefante branco
no fundo do poço
da imaginação
imaginária
imagética
Nego o mal
humor matinal
Deveria ser veludo
mas é bom bril
na voz
Onde está o pensamento que eu vivia?
O que você está falando?
Largue-me
- o elefante
branco!
Meu rosto
cerrado
Meu silêncio
Deixe
que meu mistério há de trazer seu sonho bom
minha poesia

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sombrio

Transparentemente desengonçada, entra em casa, embriagada, Olívia. Para não perder o costume vai, batendo-se nas paredes, até o banheiro. Gosta de se trancar ali. Mas que coisa, trancar-se no banheiro. Não há mais ninguém naquela casa, ninguém além dela, a raspa do prato, o prato na geladeira, fique longe da geladeira, não abra a porta das insatisfações. Comer é um prazer? Para quem? Sentada na privada, ela olha para suas mãos. As unhas um pouco opacas, esmalte vermelho velho, combina exatamente com o sentimento que lhe assola. Papel higiênico, lixo, meia-calça para cima, saia para baixo, um botão a apertare o vermelho a desabar. Resta ainda o espelho a encarar. Ele falou das unhas e dos cabelos. Meus. Mas de todos os outros falou tanto também. Coisas a que eu mesma não me atenho, talvez por uma falha de percepção estética, talvez por uma simples diferença. Será que as pessoas falam de aparências por que náo têm mais nada a dizer? Ele. Se for isso mesmo é pior do que eu imaginava. Tanta coisa para falar que é melhor não falar nada. Silêncio, estrada da sabedoria. Mas há sempre uma cidade no meio do caminho. Um quê a mais a experimentar. O mundo é hoje, Olívia. Meu azeitinho indispensável. Delícia. Bebo tanto, por tantas horas, e falo tanta coisa que depois não me lembro, por que, por que. Isso é socializar, ou é simplesmente sucumbir, admitir que é preciso deixar as palavras saírem assim, fluidas, já existe tanta coisa que se guarda, até sexta-feira, quando se joga tudo isso para fora - mas será que se joga mesmo?- quando se pode falar e eles ouvem e você também ouve tanta coisa, ele também fala tanto e não fala mais olhando para mim. São meus dedos opacos? Talvez. Cantei para ele e ele foi receber meus convidados. Esquisito mesmo, ou é o tipo de coisa que não deve ser levada em consideração, afinal de contas, cada um tem suas peculiaridades. Olívia lava o rosto. Por pouco um r no lugar do l não transforma tudo em desastre. Mas que pequenice, ela pensa. Que pensamento estúpido. A vida é muito mais do que o que aparenta, um r ou um l. Esfrega a toalha, macia, na cara lavada. Dá uma última olhada para o próprio rosto refletido e destrava a porta. Mania de se trancar, Olívia, mas o que é isso. Pelo corredor ela caminha, batendo-se nas paredes até chegar ao seu quarto. Ele falou de minhas unhas opacas. Mas quem repara nisso. Ele, o receptor de meus convidados. Mestre de cerimônias, ser e mônias, tinta de cabelo repelente de gente. Impressões são tudo quando um homem se arma para não falar com você.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sonho aéreo

Inevitavelmente aflita, ela não sabe o que está acontecendo. Viagem mental, miragem no céu de outono, neo-colonialismo explícito. Supresa a garotinha olha para o céu , ávida por experimentar a nova invenção dos adultos que lhe parecem tão igualmente infantis. São dois balões. Funciona assim: amarra-se uma corda de tecido macio em cada um deles, de modo que seus dedos fiquem confortáveis ao segurá-los na altitude; depois, coloca-se um balão em cada mão, um na direita e um na esquerda. Finalmente, ao estar bem seguro, com seus dois balões alaranjados - pois todos os balões desse invento são alaranjados, para lá em cima iludirem as estrelas com a idéia de novas constelações - um em cada mão, toma-se o impulso. E assim, levantar vôo. Como as centenas de pessoas que invadem a paisagem com seu novo meio de transporte. A ameaça de congestionamento celeste, ou a possível intervenção de miradores mal-intencionados, nada disso entra em questão nesse momento. É como se o outro e suas violências tivessem sido suprimidos pela mágica que agora se consolidou, uma humanidade onde todos podem voar e ninguém atentará contra a vida. Momento de catarse. A garota quer experimentar também. Através dos corredores entre as casas, ela olha, para cima e para baixo, desejando, pedindo, suando por encontrar num canto escondido suas laranjas voadoras. E elas lhe vêm. Imploram pelo céu. Menina desconfiada, ela segue as instruções. Um balão em cada mão. A princípio, ainda encarcerada pelo medo do fantástico, seus impulsos são fracos. Não vai muito além de vôos rasantes sobre o chão. Flutua, olhando para baixo. E agora- ela pensa - como faço para alcançar os seres balões lá no alto? Desesperadora sensação de não confiar em seus próprios braços, se eles serão fortes o bastante para aguentarem ficar pendurados em tecidos de algodão argila, soltos lá no alto e seguros, como? Cai-lhe de repente a ficha de que não há cadeirinha de passeio, se quiser voar terá que ser de pé, mas também, ela pensa, se eu quiser sentar fico no chão. Convicta de que mais vale morrer tentando do que invejar a diversão alheia, ela salta. Dez metros, vinte metros, cinquenta, cem metros e ela está acima das montanhas que rodeiam a cidade como uma fortaleza natural da qual ela nunca havia se dado conta. Lá em cima, todos voam. Com capacetes, porém. Mas ela não se preocupa com isso nas alturas. Por vezes, engole alguns fios de cabelo, mas rapidamente coloca-se a favor do vento a fim de evitar a cegueira cabeluda. Melhor mesmo seria não ter cabelo, ela pensa. Visto de cima, seu mundo é um labirinto. Concreto, terra, água, florestas, automóveis, vilarejos e plantações, tudo num plano que não se vê do chão. Tão pequena sua ilusão, tão grande a descoberta do que há em volta. Meu mundo é mesmo muito lindo. Como é bom viver. Quem inventou essas bexigas é mesmo um santo. E depois de poucos minutos sobrevoando o plano de sua existência, ela resolve descer. Acredita que é melhor não abusar, afinal de contas não passa de uma iniciante. Não é bom abusar. Ao pousar, dá-se por entendida da gravidade. Invisível imperativo, comprova sua eficácia. O peso se torna claro. Sorriso na cara, ela corre por entre as ruelas com seus dois balões na mão. Os espaços estão tomados por pessoas que olham para o céu, com seus balões e sua dúvida, tentar ou não tentar, voar ou prender. Momento do absurdo. Ela esteve lá. Também é uma estrela alaranjada. Inusitadamente, uma criança grande lhe atravessa a frente, encarando-a como uma professora quando quer saber o que você está fazendo. Você também vai voar? - ela pergunta, notando que a criança não tem balões nas mãos. Sem responder, a garotona lhe toma um balão e foge. Ela se cala. Não protesta, não vai atrás. Agora que consegui, vem uma gorda e leva embora meu brinquedo. Ela com um balão. Eu com um balão. Não serve de nada para nenhuma das duas.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Baleias

Caminho na rua pedindo, só e comigo mesma, por um silêncio. E ele vem. Como uma onda que quebra por cima de um mergulho. Quando abre-se os olhos, já passou. Mas quantas ondas tem-se que mergulhar. A vida inteira feita oceano. E onde estão as baleias dos meus sonhos submersos, eu não sei. Ando a procurá-las, mas que coisa, só tem chão embaixo de mim. Olhe para o céu então, diria Deus. Ame o próximo como a ti mesmo e saiba perdoar. De novo uma onda. E de novo eu mergulho.
Há muita gente nesse país, que de tantas nações não se sabe nação. São linhas imaginárias de um território, linhas concretas de livros que se escreve, de histórias que se conta, de cifras que se rouba. Todo dia milhões de novas imagens, mas todos desconversam. Não é a isso que se presta a adorável ciência.
Ouço-os todos roendo. Os que adoro e os que eu detesto, roendo meus pensamentos. E eu cavo no meio dos meus porques motivos para seguir encarando os mesmos elevadores, as mesmas repartições vazias no reduto intelectual da cidade maldita. Os ecos dos meus passos nos espaços vazios, não os ouço mais. Alguns diriam que é uma benção, outros que é arrogância, egoísmo, ingenuidade, comodismo. Falar. Basta um silêncio, e fico bem com as minhas ternuras descabidas.
São as baleias que eu procuro. Uma apnéia existencial.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As pessoas mudam

Não come mais no prato onde comia, detesta as roupas que vestia, os livros que lia, as músicas que ouvia, e você ia ia ia ia ia, sempre, tinha que ir, dizia. E perdia. Tempo que nunca mais vai voltar. E que passou falando o que não devia, não entendia, não merecia, e você ia ia ia ia ia, sempre, ia, dizia. Fofoqueiro como uma titia.
Hoje você vai pro mato - achando que se trata de um paraíso - , toma sua bebidinha dos deuses, brinca de roda com as crianças e vira a cara pra esses seres urbanos inimigos da moral e dos bons costumes. Vai lá e colhe lindas florzinhas, faz uma coroinha, vive uma magiquinha, inha, inha, inha, ô vidinha, quer uma cordinha?!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pensamento atômico

Quanta gente bonita. Posso sentir o cheiro do bolso recheado. Ou não, a diferença. Vontade de ser alguém que se vê. Perceba. O que há de real nesse tudo vazio. É carnaval e eu nunca gostei tanto desse cavalo babão.
Uma tristeza de olhar e não ver nada além de óculos escuros, tatuagens coloridas, cabelos recortados com tesoura de criança, pés, que jamais pisaram na merda. Essa, só se inventa. Somos todos muito inteligentes por isso não nos falta imaginação. Que luxo.

"I kissed a girl and I liked it"
"Pagar a diferença e mais 10% da tarifa de atendimento"
"Os mais legais fazem Ciências Sociais"
"Isso é apenas uma demonstração"
"Dá muita fome passear pela feira do agronegócio?"
"Vocês viram que um menino do curso foi assassinado?"
"Eu preciso de dinheiro"

Não consigo lembrar onde foi que comecei a perder a paciência. Enquanto isso me falam que eu fico bem de verde, que cabelos curtos combinam melhor com meu lindo rosto, que acabei com a vida de uma pessoa, que eu deveria me preocupar com bens porque o amor acaba, que Bourdieu é o cara, que tal lugar é ótimo para levar amantes, e o pior, o pior de tudo que eu ouvi, foi um gentil "fique à vontade", fique à vontade? Só pode estar tirando com a minha cara.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Garantia

Cifra que divide o amor
jamais vira soma
Sempre areia
escorregando no buraco
e o tempo passa
e a cifra passa
e é tanta areia que nunca se enxerga nada

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

30 de dezembro de 2008

Um céu de papel. No último dia de trabalho de 2008, a burocracia da cidade grande mostra enfim sua humanidade. Na sua boca, seu cabelo, enroscado no sapato, por toda a calçada é papel, caído das janelas do alto dos edifícios. É assim que a gente vive, mostram os malandros cariocas. Dezoito horas e nenhuma cadeira vaga em boteco algum. É 30 de janeiro e a despedida do ano já começou. No coração do centro financeiro da metrópole vem vindo o bloco de carnaval. É tanta paz que meus pensamentos calaram. Na certa foi coisa do batalhão de santinhos já benzidos que minha irmã carrega na bolsa.